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A vida, através dos filmes, a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.13

Este rio sem regresso já trouxe muitos filmes consigo mas é da vida que trata. A vida é que sobressai em tantos filmes...

Já o disse aqui que no cinema prefiro o que é verosímil, próximo da realidade. A fantasia delirante não me atrai, embora lhe possa reconhecer valor artístico e cinematográfico. É a realidade que me seduz, a vida, a experiência, as emoções, os sentimentos, um percurso, um caminho, as consequências de cada decisão e de cada escolha, os imponderáveis, as surpresas, os encontros e desencontros, as expectativas.

 

Alguns filmes trazem-nos a vida lá dentro, nas personagens sobretudo, na forma como encaram as situações, como se adaptam ou  modificam as suas circunstâncias, por vezes adversas, como enfrentam os desafios. Digamos que há filmes inspiradores. Tal como os livros, só que com vozes lá dentro, os sons e os silêncios, os risos e as lágrimas, e por vezes os lugares, as árvores, as cidades, as atmosferas. É essa a possibilidade do cinema que destaco e registo na alma, a densidade de uma atmosfera. 

Para tudo isto acontecer - e tantas vezes é a sorte de felizes encontros -, entra um grupo de pessoas, o guionista, o realizador, o produtor, o director de fotografia, os actores, o compositor, e sabe-se lá mais que influências, que conversas, que trocas de ideias, cada um a colocar um pouco de si próprio no trabalho final. 

Mas é ainda ao realizador e ao seu olhar único sobre uma ideia, um guião, que podemos atribuir a atmosfera única de cada filme, é esta a minha convicção. O seu olhar prevalece, mesmo que trabalhe em equipa como parece ser a tendência actual. Já lá vão os tempos de realizadores autocráticos como o Hitchcock ou maníacos como Orson Welles. E tantos outros génios do Cinema.

 

Já aqui fiz um dia um apanhado das décadas de Cinema a navegar neste rio. Hoje deixo aqui uma actualização, não apenas por décadas de Cinema mas também pelos realizadores mais representados:

 

A 1ª década de 2000 continua a mais representada com 37 filmes. Além dos referidos na altura, gostaria de destacar que, destes apresentados mais recentemente, o tema central é a violência. A sua natureza original na própria família e cultura de grupo, no incómodo e angustiante O laço Branco. A violência silenciada e aceite na reviravolta política da África do Sul em Disgrace. Uma outra forma de violência, a indiferença, mais grupal e das organizações do que a individual, em Babel. Indiferença, distância emocional e frieza nas empresas actuais e na forma como se descartam de recursos humanos em Nas Nuvens. A violência da guerra, neste caso a do Iraque, mas pode aplicar-se a todas as guerras, em Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone). A violência e o caos generalizado numa projecção num futuro não muito distante em Children of Men.

Para nos consolar de tanta violência, só mesmo o humor de Woody Allen em A Maldição do Escorpião Jade, Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works).

De destacar ainda a mudança de perspectiva de um homem de meia idade: um, sobre o balanço da sua vida em As Confissões de Schmidt, o outro, o desafio que é lidar com a genica de um grupo de senhoras idosas, em Pranzo di Ferragosto.

 

A década seguinte mais representada é a dos anos 50 com 29 filmes. Além dos já aqui referidos, estes são todos magníficos: mais um William Wyler, Desperate Hours, mais um Anthony Mann, The Tin Star, mais um Douglas Sirk, Written in the Wind, um Billy Wilder, Sunset Boulevard, e um Robert Wise, Executive Suite.

 

A seguir, com 21 filmes, a década de 90, com mais este Jerry McGuire, e com 17 filmes, a década de 80, com mais estes Finnegan e O Turista Acidental.

 

A década de 40 não está mal representada apesar de tudo. São 13 filmes no total, acrescentados mais um Hitchcock, Rebecca, e um King Vidor, The Fontainhead.

 

As décadas menos representadas mantêm-se a de 60, com 9 filmes, a de 70 com 7, e a de 30 com 5, já apresentados na altura.

 

Quanto a realizadores, os mais representados e referidos são: John Huston com 6 filmes e referências a filmes, Steven Spielberg com 5, Frank Capra e Woody Allen com 4, William Wyler e Alfred Hitchcock com 3, John Ford, Joseph Mankiewicz, Elia KazanDouglas Sirk, Anthony Mann, Ingmar Bergman e Robert Wise com 2.

 

Estes são os grandes, entre outros, realizadores, numa época em que a realização era uma arte original, a desbravar caminhos, a experimentar planos e sombras, a adaptar a narrativa à linguagem própria do cinema, e a  escavar mais fundo na alma humana, no seu lado luminoso e no seu lado mais negro.

Hoje o Cinema tem outros desafios, pode escolher a maior simplicidade e naturalidade ou a maior complexidade e artificialidade, pode jogar, simular, cortar e colar, num ritmo muito mais veloz e adaptado ao tempo actual, sincopado e ansioso, por vezes ansiógeno.

 

Mas estes realizadores, entre outros, são muito mais do que pioneiros numa arte e numa linguagem única, imagem, movimento e som. Criaram uma atmosfera única, um olhar completamente novo, a frescura de todos os inícios e descobertas.

 

Para animar os Navegantes deste rio, e como síntese de homenagem a todos os realizadores que aqui navegam também, aqui fica uma cena de Manhattan com um dos pares que melhor funcionaram nos diálogos da comédia woodiana. Manhattan, como já repararam, é um dos meus filmes preferidos. Uma boa navegação... e não se deixem desviar por nevoeiros...

 

 

 

 

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publicado às 23:16

Tennessee Williams e o Cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.10

 

Este post poder-se-ia chamar "a insondável alma humana". Só que a alma, para Tennessee Williams, é muito mais complexa do que normalmente a consideramos. E muito mais terrena. É também essa a minha perspectiva: a alma humana enraíza-se como uma árvore a um território, a uma terra viva. Está ligada ao desejo, aos sonhos, às mágoas, à verdade que enterramos e escondemos, ao medo original, ao desamparo, à carência do amor, à dor inconsolável.

 

Nunca conseguirei explicar aqui a ressonância dos textos de Tennesse Williams na minha própria alma. A sua voz, ou melhor, a das personagens, é poética e cruel, expõe o que escondemos e a verdade de que fugimos.

É um dos meus autores, se assim o posso dizer. As suas peças são sequências de frases, de sínteses, de pequenos choques, que nos emocionam, quase sempre hipnotizam, vêm carregadas de electricidade e deixam-nos um calafrio. Não conseguimos escapar, não é possível. Tudo aquilo faz sentido, é a própria natureza humana, sem disfarces nem maquilhagem.

 

Por isso as suas peças são tão cinematográficas: A Streetcar Named Desire... Cat on a Hot Tin Roof... The Fugitive Kind (Orpheus Descending)... Suddenly, Last Summer... The Roman Spring of Mrs. Stone... Sweet Bird of Youth... The Night of the Iguana... The Glass Menagerie...

 

aqui coloquei a navegar Suddenly, Last Summer e também Cat on a Hot Tin Roof. E já aqui chamei as minhas personagens preferidas de Deborah Kerr, Hannah Jelkes, e de Richard Burton, Rev. T. Lawrence Shannon, em The Night of the Iguana.

 

O impacto deste segundo Suddenly, Last Summer, que revi há uma semana, foi ainda mais intenso do que a primeira vez. Raramente isso me acontece com os filmes. Talvez eu não tenha apreendido todo o seu significado da primeira vez.

Aquele jardim sinistro, uma réplica da floresta original, em que tudo se devora numa lógica indiferente e cruel, essa lógica que é traduzida de forma estranhamente próxima no relacionamento humano.

Sim, recordava bem esse jardim na casa de Violet Venables. E da forma absolutamente alucinada como ela se refere ao filho Sebastian, e ao significado da vida, do amor, da poesia. Vemos todo o horror paradoxal da sua descrição da viagem com o filho às Encantadas, como ele lhe mostrara a crueldade da natureza, como lá tinham voltado para ver como os pássaros devoravam as tartarugas recém-nascidas.

 

Talvez tivesse de ver muitos outros filmes entretanto para realmente ver este Suddenly, Last Summer. Desde a forma absolutamente mágica como esta peça é transformada em linguagem do cinema, as cenas, os planos, o ritmo, o movimento, as frases, os diálogos, os cenários, a fotografia. Tudo está perfeito. Mesmo os actores:

- Gostei muito de ver Montgomery Clift no papel de médico, que veste na perfeição, a postura correcta, o registo convincente;

- também com Elizabeth Taylor, talvez me tenha precipitado ao considerar Maggie the cat o seu papel, pois esta Catherine está verdadeiramente magnífica;

- e que dizer de Katharine Hepburn?, uma Violet Venables inquietante, arrepiante por vezes.

 

Ainda consigo ficar estupefacta com a estranha modernidade destes filmes! A sério! É como se fossem, também eles, intemporais. A sua poesia é eterna, talvez porque as frases de Tennessee Williams são eternas, talvez porque se ligam estranhamente à própria natureza humana.

Teremos mudado assim tanto desde a selva e a violência da sobrevivência, numa lógica cruel de predadores e as suas presas?

E não é estranho que só adoece quem está perto de uma consciência humana? Catherine, talvez o exemplar mais saudável e terreno daquela família, adoece com a verdade insuportável de tão dolorosa.

A mãe está pronta a sacrificá-la por dinheiro. O irmão nem reflecte nas consequências.

Violet tinha dito: Como é possível de uma família de naendertais sair um milagre da natureza?E no entanto... também ela pressiona os médicos para operar a verdade, extraí-la da memória da sobrinha, como se a verdade fosse operável.

É só com a aceitação total, sem reservas, do terrível segredo de Catherine, que a sua cura é possível. Só a verdade cura. Embora pressionado pelo director do hospital para a operação da jovem mulher, o médico hesitará até ao fim, até desmontar o puzzle dessa verdade terrível, e desvendar o que acontecera realmente no verão passado.

A verdade encerra o inaceitável para a mãe de Sebastian, que não conseguirá lidar com ela. A verdade sobre a natureza do filho, sobre a sua relação com o filho. A sedução como organização de vida. O desejo, sempre insaciável, sempre insaciado. E a utilização das pessoas, como dirá a jovem mulher ao médico: Amar não é utilizar as pessoas? Catherine fora útil ao primo nesse verão, servira de isco nessa caça, forma primitiva e simples da natureza primordial.

Estaremos assim tão longe da natureza primordial? É isso que nos arrepia em Tennessee Williams: ele revela-nos o nosso rosto e, de certo modo, o rosto de Deus. A nossa percepção de Deus. Aqui, Deus é a natureza que se devora numa lógica implacável.

 

Em The Night of the Iguana, Deus é o poder que tudo decide, naquela noite em que as duas personagens libertam o animalzinho. Também é o Deus da aceitação de todas as criaturas tal como são, só porque são humanas, nada mais (Hannah Jelkes). Também é o Deus de todas as possibilidades, como finalmente terminar um poema, precisamente antes de morrer (o avô dela). Ou descobrir que se chegou a casa depois de todas as aventuras e desilusões filosóficas e morais (Rev. T. Lawrence Shannon).

 

Em A Streetcar Named Desire, vemos que o próprio desejo é também ele insondável, não lhe percebemos a lógica, mas vemos aqui a sua força, o seu poder. Uns perseguem-no ou ficam a ele presos, outros fogem para outros territórios, para outros planos onde possam existir. De muitos misfits no cinema, esta personagem, Blanche Dubois, é uma das mais trágicas e poéticas. Também é uma das mais parodiadas noutros filmes e séries de televisão, nem sei bem a que propósito, porque aquela frase soa-me ao desamparo mais paradoxal que há, porque soa estranhamente teatral: Sempre dependi da amabilidade de estranhos...

Magnífica Vivian Leigh!, e também noutro Tennessee Williams: The Roman Spring of Mrs. Stone. Li o livro ainda no tempo da idade impressionável (trata-se de uma novela) antes de ver o filme, o que faz muita diferença. O filme aproxima-se muito desse sentimento terrível da percepção da idade como decadência física, como se fosse uma doença. É terrivelmente actual, porque é para essa obsessão que se está a caminhar. É certo que para uma actriz a idade tem imensa importância porque pode impedi-la de aceder a certos papéis.

No livro, lembro-me bem, Tennessee Williams é implacável. O seu olhar vê como um lazer, através da superfície, mas a sua voz, a sua voz é incrivelmente poética e sintética. Nunca vi escrever assim...

 

E ainda me falta falar de Sweet Bird of Youth e The Glass Menagerie.

Do primeiro, fixei sobretudo aquele par trágico, Chance Wayne (incrível Paul Newman) e Heavenly Finley (Shirley Knight). E a predadora Alexandra Del Lago (magnífica Geraldine Page). E como é frágil e, no entanto, resistente, o doce sabor do amor. Interessante este desmontar da linguagem do poder, através do pai de Heavenly, de como utiliza e tritura todos os que o rodeiam para conseguir os seus objectivos, como mantém uma mentira na maior hipocrisia. Como se é imune aos sentimentos dos mais próximos, ao seu sofrimento, mesmo humilhação pública.

Do segundo, e é o segundo Paul Newman aqui, registei o papel de Joanne Woodward. Mas também de John Malkovich. Gostava igualmente de ver a versão desta peça num filme de 50, sobretudo pelos actores, Jane Wyman e Kirk Douglas.

Finalmente, também gostava de ver The Fugitive Kind (baseado na peça Orpheus Descending), de 59, com o Marlon Brando e a Anna Magnani.

 

 

 

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publicado às 20:37

O Natal e o amor genuíno

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.09

 

O Natal sugere-nos autores como Charles Dickens, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde...

E filmes como os Capra ou alguns musicais: Meet me in Saint Louis, por exemplo, que em breve aqui quero colocar a navegar... ou o eterno Música no Coração...

 

Este Natal dou por mim a lembrar-me de cenas de filmes que em princípio nada têm a ver com o tema que procuro, mas que os meus neurónios insistem em associar. E é assim que hoje me surge o Tennessee Williams e o Richard Brooks em Gata em Telhado de Zinco Quente.

Um patriarca poderoso, uma família a gravitar à sua volta, mulher submissa e primogénito obediente incluídos, duas noras, uma ambiciosa, outra realista.

Um único elemento foge ao seu controle: o filho mais novo, o seu bem-amado.

Podem questionar-me, o que é que isto tem a ver com o Natal, que eu direi: Tem tudo. Uma família, conflitos de interesses, discussões, lutas pelo poder. E a possibilidade, milagrosa, da comunicação entre um pai poderoso e um filho falhado.

Há aqui de certo modo a repetição da Parábola do Filho Pródigo, mas em que este filho se torna a solução de todo o dilema da linguagem do poder, quando o poder se desmorona.

 

A cena-chave é a conversa pai-filho na cave da casa, já perto do final do filme. Por esta altura, já todos sabemos (menos o próprio) que o patriarca está muito doente, que os resultados dos exames médicos a que se submetera tinham confirmado o pior.

Também sabemos que o filho mais velho, instigado pela mulher ambiciosa, prepara o terreno para suceder ao pai nos negócios e na gestão da propriedade. Vemos desde o início a forma sistemática de apropriação do poder, em que tudo é jogado ao milímetro, usando os próprios filhos (e são muitos e barulhentos) como animais de circo amestrados.

A mulher realista, aplica-lhes um nome que lhes cai na perfeição: no neck monsters. Avisa aliás o marido da sua situação vulnerável e em clara desvantagem em relação ao irmão: tornara-se um alcoólico e não têm filhos.  (1) Acorda-o para a sua própria realidade: como irá sustentar o vício se o irmão tomar o controle de tudo? Sei o que é ser pobre, diz-lhe também. Vemos como esta mulher defende o marido das críticas da cunhada e como utiliza as únicas armas que tem: a capacidade de agradar aos homens, é jovem e bonita. Sabe, e di-lo ao marido, que o Big Daddy gosta dela.

Sim, por esta altura também sabemos que a mentira se instalou naquela casa. E o cerco começa a fechar-se à volta da mulher submissa, da que toda a vida vivera na sombra do patriarca, que a ele se dedicara, mesmo que negligenciada. É aqui que percebemos a diferença abissal entre as noras: a ambição mesquinha e a defesa de um lugar legítimo. Na ambição mesquinha não há lugar para o respeito, a sensibilidade e a compaixão. Atropela-se tudo e todos pelo caminho.

A cena-chave surge mais ou menos por aqui. O Big Daddy refugia-se na cave e é aí que enfrenta a verdade pela primeira vez. A verdade que se recusa a aceitar no início. Mas que as dores cada vez mais fortes lhe vão revelando. E finalmente, a frontalidade do próprio filho.

 

Porque gosto tanto desta cena? E porque a associo ao Natal? Aí vai:

Este filho, alcoólico, desportista falhado, mostra ao seu pai, poderoso e dominador, que a verdadeira força está no amor genuíno e não nas coisas que lhes dera.

É nesse desespero do filho, a partir objectos de viagens pela Europa, que o pai finalmente percebe a diferença: You owned us! é bem diferente do amor que ele próprio tivera em miúdo.

É isso que finalmente percebe quando pega na única coisa que o seu próprio pai lhe deixara, uma velha mala, uma velha mala, insiste, e um velho uniforme.

Mas o seu olhar ilumina-se imediatamente ao falar do pai, daquele velho vagabundo, e da felicidade desses anos juntos, da alegria do companheirismo, do amor genuíno.

 

Às vezes temos de ir às origens, à raíz, escavar emoções e sentimentos, o essencial de nós. Pode ter sido fugaz, breve, e muito longínquo, mas é isso que conta, a base de tudo, a nossa razão de viver. Só a partir daí é possível enfrentar a morte próxima, ou o fracasso e a cobardia.

O realizador deu esta tónica ao filme. O Big Daddy sai da cave determinado a viver os últimos dias que lhe restam de uma forma significativa. E o filho liberta-se finalmente do seu próprio pesadelo e deixará de rejeitar a mulher.

 

Não era esse o final que o Tennessee Williams queria, nem era essa a tonalidade da peça, segundo o que percebi num documentário. Mas eram os anos 50. (2) E também o que me prende ao filme não é essa perspectiva de análise possível das personagens. O que me prende ao filme é a discussão pai-filho naquela cave.  (3)

 

 

 

(1) Elizabeth Taylor aqui talvez no seu melhor papel de sempre, mulher sensual e insinuante, que o marido rejeita. A sua insistência mostra a sua força interior. É bem verdade que esta mulher tem vida dentro de si, como lhe dizem na cena final do filme.

(2) De certo modo, esta peça de Tennessee Williams é muito actual, numa altura em que se fala da forma mais ignorante, artificial e espalhafatosa das complexidades individuais, em que se reduz a identidade de alguém às suas opções pessoais de vida. Na peça há uma clara referência à homossexualidade recalcada do filho alcoólico e da sua relação com o amigo que se suicidara. Esta perspectiva da personagem é mais verosímil do que a apresentada no filme e não me admira nada que o Tennessee Williams tenha ficado decepcionadíssimo com as cenas finais. Mas como disse ali atrás, eram os anos 50, os anos moralistas do cinema.

(3) É também o meu papel preferido de Paul Newman, de copo na mão, no papel de desportista falhado, de desistente da vida. Embora tenha de reconhecer que poucos são os papéis que representou que eu não tenha adorado!

 

 

 

 

 

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publicado às 21:27

"Vou ali abaixo defender os meus direitos"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.09

 

Esta line do Marlon Brando é já perto do final. On the Waterfront deixou-me uma marca para sempre... e logo à primeira. E já o devo ter visto umas cinco vezes...


Aquela atmosfera só podia ter sido conseguida pelo Elia Kazan. Uma atmosfera densa e tensa, do início ao fim. Em que o próprio ar parece ter electricidade.
As imagens são tão poéticas, mesmo toda aquela zona descaracterizada do porto... e aquele parque... e aquelas ruelas sombrias...
E as personagens... De todas, a mais improvável, o Terry Malloy, promissor lutador de boxe profissional, que podia ter sido alguém, como o próprio dirá ao seu irmão corrupto, ao das apostas e das manobras de intimidação do Sindicato. Improvável, por ter crescido entre mafiosos, com os valores distorcidos, mas que lhes resiste sempre, até ao fim. É certo que, para sobreviver até ali, obedecera sempre ao irmão, mas sem passar os limites. Até perceber que não podia ser neutro.
E é uma rapariguinha saída de um colégio de freiras, que lho vai mostrar. É a coragem e a convicção da rapariga que o irão pôr em acção. A rapariga que aparece na sua vida da forma mais estranha: ele sabia quem lhe matara o irmão, era testemunha de um crime. Mas será apenas mais tarde, com a morte do seu próprio irmão, que avançará com a denúncia dos criminosos.


Todas as cenas no telhado, onde Terry cuida dos pombos, são verdadeiramente poéticas... É como se tudo fosse simbólico: o céu (telhado), a paz (pombos), e lá em baixo... a luta e a morte.
Assim como todas as cenas ao longo do parque... aqueles diálogos poéticos... o que se diz, o que fica por dizer e o que fica suspenso...
Todas as cenas destes dois, tão diferentes, e no entanto, tão milagrosamente próximos. De tal forma próximos que é essa proximidade que os irá transformar. Ele, acordar para a revolta e para a exigência dos seus direitos. Ela, para assumir a sua sensualidade e aprender a confiar no amor.


Também é um Padre, o corajoso Father Barry, que lidera a resistência pacífica destes homens explorados e subjugados. E todo o seu discurso nos dirige para os valores cristãos, ali tão esquecidos. É o pai protector, no fundo, que nunca os abandonará. É interessante ver, antes mesmo da possibilidade de uma nova Igreja sonhada, a de João XXIII, esta Igreja do Father Barry, mais próxima da vida real e dos homens que sofrem. A cena no armazém, depois da morte de um homem que arriscou desmontar o controle do Sindicato, em que o Padre se refere a esse Cristo também ele morto pela verdade e dignidade dos homens, é verdadeiramente comovente.


E chegámos à line do rapaz já homem: Vou ali abaixo defender os meus direitos.
A luta final (e desleal) com o Johnny Friendly deixam-no fora de combate, e é um homem ensanguentado e cambaleante que vemos aparecer, passo a passo, para iniciar um novo dia de trabalho nas docas. Já sem o domínio e controle do Sindicato. Porque só assim os outros homens, que ali trabalham, o seguem.

 

Os homens têm esta marca registada do predador-vítima, esta violência hereditária. E da cobardia que se refugia tantas vezes no grupo e que aceita o inaceitável. E que precisa do sacrifício de uma vítima para acordar.
A dignidade conquista-se, essa é outra das mensagens. Nunca é garantida. (Ainda não é a liberdade como a da estátua, a do símbolo americano, porque um homem livre pode escolher e estes homens estão condicionados à vida das docas).
A dignidade de um trabalho, ainda que simples, mede-se pelo seu reconhecimento e pelo respeito da comunidade, e é um bem precioso. E numa altura em que vemos novas formas de exploração do próximo (e de domesticação) é uma mensagem fundamental.


Há milagres da natureza, como este jovem destinado a uma vida irregular e criminosa, mas cuja sensibilidade, pacífica e leal, o liberta dessa programação.


O amor pode surgir de dois mundos diversos e paralelos: a casca protectora de uma família carinhosa e de um colégio fechado (a rapariga) e um meio hostil e violento onde não há afectos mas apenas manipulação (o rapaz).

 

 

 

Aqui também, a navegar...

 

 

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publicado às 08:22

Os melhores Realizadores são os que respeitam os espectadores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.02.09

 

Sempre vi a arte como comunicação: se  não pretende dizer nada a ninguém não é arte. Se não pretende mudar nada, não é arte. Se não pretendeprovocar uma qualquer reacção, não é arte. Com o cinema também é assim. É por isso que não coloco, no plano dos melhores, alguns Realizadores celebrizados. E mesmo que os críticos de cinema nos assegurem que o que produzem é arte, se o espectador não se sentir tocado, envolvido, provocado, assustado, comovido, não é arte, é outra coisa.


O bom Realizador não se sobrepõe ao filme, não se exibe, oculta-se. E ao ocultar-se, afirma-se. O que brilha é o tema, as personagens, a acção. E a razão do filme não é ele próprio, falar consigo próprio ou uma forma de se exibir, mas uma forma de comunicar. Não acredito no culto da personalidade. Mesmo em John Ford, o excêntrico e independente, o que se sobrepõe nos seus filmes é o seu enorme amor ao cinema, ao trabalho de equipa, ao grupo de amigos. É nisso que eu acredito.


E há muitos outros: um pavão como o Hitchcock que até aparecia fugazmente no meio dos filmes para ser identificado (o eterno suspense), e cultivava o voyeurismo, é sempre para o espectador que se dirige, sempre:brinca com o espectador, pisca-lhe o olho,provoca-o até ao limite, como um rapazinho maroto que gosta de pregar partidas.
E até o por vezes insuportável Orson Welles, esse génio perfeccionista até à exaustão, é o espectador que ele quer impressionar e deslumbrar com as suas magníficas proezas. O espectador que conseguiu assustar, ainda muito jovem, num programa de rádio.

O cinema é uma linguagem artística específica: uma imagem fixa, estática, não é cinema, é fotografia. Um longo monólogo ou um longo diálogo, não é cinema, é teatro.
A alma do cinema está no movimento, no seu ritmo, no seu bater do coração. Por isso lhe chamaram motion pictures, essa designação deliciosa... O movimento, a acção, decorre num determinado período de tempo, que tanto pode ser uma hora, como um dia, um mês, um ano ou atravessar séculos. Sendo diferente da fotografia, as imagens não podem permanecer fixas, congeladas eternamente, muito menos quando isso não se adequa ao sentido da acção ou à respiração das personagens.


Compreender a linguagem específica do cinema é interiorizar a importância da gestão do tempo. Sendo diferente do teatro, os diálogos têm de ser muito mais trabalhados e sintetizados com um timing e ritmo adequados à acção e ao tempo em que decorrem. Nalguns Resnais, os actores simplesmente prolongam os seus diálogos até desejarmos calá-los de alguma forma, de qualquer forma! Monólogos intermináveis ou diálogos pormenorizados podem matar um filme.


Podem questionar-me: e a liberdade criativa? Tudo bem, mas uma coisa é aproximar-se dessas outras linguagens artísticas, outra muito diferente é afastar-se completamente da sua própria linguagem. O cinema tem uma linguagem específica, com regras próprias, o domínio de uma técnica: movimentos de câmara, os diversos ângulos, aproximação e distância, a montagem, efeitos especiais, etc. Só a partir do domínio de uma técnica se pode passar para outros vôos. É por isso que há muito de engenhocas nesta linguagem específica. E muita paciência e atenção aos pormenores.


Sequeira Costa disse, num magnífico documentário recente na Rtp2, que um pianista tinha de ter, além de uma sensibilidade acústica fora do comum, uma sensibilidade para a Arquitectura. Que uma partitura era como uma construção complexa. Pois bem, o mesmo se passa com o cinema, só que a construção está em movimento, é móvel, como um grande cubo mágico, com um espaço e um tempo próprios, um ritmo, um equilíbrio. O cinema exige igualmente uma sensibilidade visual fora do comum: Hitchcock conseguia ver o filme todo antes de iniciar as filmagens.
Há uma acção que determina o sentido, mas também pode ser uma acção interior, uma tensão emocional, uma descarga eléctrica, uma atmosfera. E aqui podemos pensar em Elia Kazan.


Ora, só é possível transmitir tudo isto através de uma técnica, a sua base. Uma boa técnica ajuda o bom Realizador. Ter visto os clássicos, ter-se demorado pelos seus loucos inícios, a sua euforia e a sua glória, a sua loucura também, é fundamental para se ser bom Realizador. Não precisa de ver tudo mas precisa de ver atentamente. A pouco e pouco começará a distinguir o que para si é bom, mau e assim-assim. Começará a descobrir, com uma certa perplexidade, que há o bom em filmes de série B e com fraco orçamento, e que há o mau em filmes premiados e até oscarizados. Sim, aprenderá a treinar o seu próprio olhar crítico e a não basear-se nos olhares de especialistas. A partir daí está por sua conta. E já pode arriscar o seu próprio caminho, utilizando a sua própria ferramenta: inteligência, sensibilidade, técnica adquirida, criatividade e ousadia. A cada um a sua sensibilidade.


Spielberg dá-nos autênticas lições de cinema nos seus filmes, como uma síntese baseada na sua sensibilidade filosófica e visual, porque percebeu e integrou a sua linguagem específica, a sua técnica.
Sim, os melhores Realizadores respeitam os espectadores, respeitam o guião, as personagens, os actores. E aqui voltamos ao Clint Eastwood. Todos os actores que com ele trabalham dizem isso mesmo: há um clima acolhedor; mantém um bom ritmo nas filmagens; não exige muitos takes porque se organiza previamente muito bem e sabe o que quer; e consegue transmitir a sua ideia aos actores e aos restantes elementos da equipa.

 

 

 

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publicado às 23:04

Quando uma natureza bravia e uma natureza pacífica se encontram

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.11.08

 

A força da natureza. A lógica do progresso. Uma ilha incómoda. E a descoberta do desejo, também ele indomável. Um encontro que se revela criativo. Wild River.


Voltei a descobrir este filme, desta vez na RTP Memória. Desde que o vi pela primeira vez que me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomável da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diálogos contidos, os gestos expressivos... Há qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poético neste filme! A terra e a alma estão ligadas, na avó da jovem mulher. A própria mulher é um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirá ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistência à abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) é mais aparente do que real. E às vezes só se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, são mais chuvadas, está-se em Outubro).

Bem, nesta altura já deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar é, também ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem também, também assim azul...


Voltando ao Wild River: A avó de uma jovem mulher, viúva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. Permanecerá ali, teimosamente, até a obrigarem a sair. Vemos, no seu último olhar desesperado para a árvore que cai, que alguma coisa dentro de si também começou a cair... E mesmo que a nova casa também tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... não durará muito, adormecerá na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardará ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que só desta vez reparei.


Há momentos verdadeiramente mágicos! Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tão intensos, os filmes desta época! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tão minimalista. Elia Kazan é exímio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitação é interior, está quase a explodir, já a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo está diferente. Eles mudaram. E será assim a partir daí. Até ele descobrir que não é assim tão auto-suficiente... que (também ele) precisa dela.
Não é fácil amar-te, dir-lhe-á ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... Está à sua frente, tão franca e vulnerável, tão altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amá-lo, mesmo podendo perdê-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.


Sim, há qualquer coisa de bravio neste filme. E de poético também. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacífico não irá poder resistir. Não apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitará o seu desafio e da forma mais inesperada possível. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso não é importante. Ali estão, no meio da lama onde tinham caído, lado a lado. E então o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que ele provavelmente se irá arrepender e que certamente ela se arrependerá... Mais inesperado do que isto é impossível.


Sim, o homem ganha uma família instantânea, como já lhe tinha dito, de forma sarcástica, um dos manda-chuvas do sítio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivíduos exemplificam, na perfeição, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. Também é aqui visível o racismo, em que não há igualdade de tratamento nem de salários. Esse é, aliás, um dos pontos de fricção cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui também podemos medir a sua coragem na medida inversa à sua habilidade e força física. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita à violência física, não abdicando dos seus princípios.

 

Em Wild River a natureza está sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso também está a acontecer dentro de nós, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma árvore a tombar…
O ritmo também acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que só se sente a respiração das personagens, diríamos que numa linguagem e num tempo mais próprios do teatro (e isso é muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick é a viúva um pouco bravia. Montgomery Clift é o homem pacífico. Jo van Fleet é a mulher da ilha, de um território, raiz de uma árvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimónia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilíbrio instável. Em Wild River até a barragem parece ligar-se de forma poética às montanhas que a envolvem. Mas será possível dominar um wild river?

 

 

 

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publicado às 13:48


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